Fruta-do-milagre

Synsepalum dulcificum

Raquel Patro

Atualizado em

Synsepalum dulcificum

Se você é daquelas pessoas corajosas que pode comer um limão ou uma cebola crua, sem fazer careta, não vai se impressionar com essa frutinha. Mas se você torce o nariz para sabores ácidos vai se encantar com a fruta-do-milagre. Acontece que essa baga vermelha, levemente doce, tem uma substância pra lá de diferente: a miraculina. Uma glicoproteína capaz de se ligar aos receptores de doçura, que ficam nas papilas gustativas.

Geralmente, se espera que substâncias legitimamente doces apareçam e ativem esses receptores, como um pudim de leite cremoso. Mas a miraculina distorce nossos sentidos e faz com que esses receptores se tornem responsivos a ácidos, ao invés de açúcar e outros doces. Assim, se você mastigar um pouco desses frutos, pode ficar de 30 minutos a duas horas acreditando que limões e outros alimentos azedos são muito doces e nada ácidos. Na prática, quem faz a experiência, e exagera na dose de ácidos, pode acabar ganhando aftas na boca e língua, pois apesar da percepção doce, esses alimentos continuam sendo ácidos.

Detalhe das flores. Foto de Scott Zona

Sabe-se que a fruta-do-milagre é utilizada pelo menos desde o século 18, quando o explorador europeu, Chevalier des Marchais, que estava à procura de frutas exóticas na África Ocidental, notou que os nativos colhiam a fruta e a mastigavam antes das refeições. O mais estranho é que na década de 1970, a fruta e seus extratos eram disponíveis e utilizados, por americanos adeptos de dietas de emagrecimento. Mas a FDA (Food and Drug Administration) acabou vetando sua comercialização sob a alegação de que a fruta era um aditivo alimentar e que necessitava de evidências científicas de segurança. Exatamente o tipo de decisão que parece ser influenciada pela indústria dos adoçantes. Teorias da conspiração à parte, hoje em dia é possível cultivar a fruta-do-milagre no próprio quintal.

A fruta-do-milagre é uma espécie arbustiva, originária da África. Ele alcança cerca de um metro de altura e é multicaule,  ou seja, apresenta vários caules lenhosos e fissurados de cor cinza parda que surgem a partir da base. Sua seiva é leitosa e forma uma copa globosa, arredondada, com folhagem sempre verdes o ano todo.  As folhas são simples, oblongas a lanceoladas, perenes, alternas, glabras, de textura cartácea e com nervuras bem marcadas. As flores são bissexuais, brancas, pequenas, solitárias ou em pequenos cachos e despontam ao longo dos ramos durante todo o ano. O cálice das flores é composto por quatro a cinco sépalas, a corola com quatro a cinco pétalas e o androceu com cinco estames. A planta realiza autogamia, mas a polinização cruzada também pode ocorrer. O fruto que se forma a seguir é uma baga elipsóide, com casca recoberta por pelos bem curtos, inicialmente verde e que se torna vermelho brilhante quando maduro, cerca de 90 dias após a floração. Cada fruto carrega uma uma semente grande, preta e cercada por uma fina camada de polpa branca com um leve sabor de cereja.

A beleza da folhagem brilhante da fruta-do-milagre. Foto de Forest e Kim Starr

Para além dos usos recreativos e medicinais, que ainda necessitam de muitos estudos, a curiosa planta do milagre pode ser utilizada no paisagismo, pois trata-se de um arbusto de elevado valor como ornamental. Suas flores pequenas tem pouca importância estética, mas os frutos vermelhos e duráveis unidos à folhagem perene tornam esse arbusto bastante atraente e decorativo. Ele pode ser conduzido como arbusto ou como arvoreta mediante podas de formação, e se encaixa no pomar ou mesmo no jardim formal. Também pode ser plantado em vasos, decorando varandas e terraços.

A fruta-do-milagre deve ser cultivada sob sol pleno ou meia sombra, em solos férteis, com pH ácido (entre 4,5 e 5,8), drenáveis e ricos em matéria orgânica. No jardim, depois de bem estabelecido, o ideal é que as regas sejam suplementares. Aprecia o solo úmido, mas não tolera encharcamento. É resistente a curtos períodos de estiagem e deve ser protegido do frio ou geadas. O ideal é fertilizá-la com adubos orgânicos, como farinha de ossos e esterco de aves bem curtido, ou adubos minerais, como fórmulas NPK próprias para frutíferas, seguindo sempre as recomendações do fabricante. Lembre-se de regar a planta antes e após cada fertilização, a fim de evitar queimaduras nas raízes. Multiplica-se por estacas e sementes, que devem ser colhidas de frutos maduros e despolpados, e plantadas logo em seguida, evitando assim a perda do poder germinativo (recalcitrantes). As sementes levam de 14 a 21 dias para germinar. Os pequenos arbustos iniciam a frutificação cerca de 3 a 4 anos após o plantio e produzem duas colheitas por ano, após o período chuvoso.