Os Jardins Biodiversos

Marilua Feitoza

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Marilua Feitoza – jornalista e jardinista, especialista em PANC e plantas medicinais

Após uma live inspiradora com a Raquel Patro sobre Jardins Biodiversos, resolvi escrever esse artigo para contar sobre como pode ser incrível trazer para o jardim de casa, a biodiversidade. Moramos no país com a maior biodiversidade do mundo! A variedade de biomas existentes no Brasil reflete uma enorme riqueza da flora e da fauna: que se traduz em mais de 20% do número total de espécies da Terra. Então, por que quase sempre optamos pelas mesmas plantas no paisagismo, muitas delas, exóticas?

Isso perpassa por diversas questões, que demostram, inclusive, o controle que nós humanos queremos exercer sobre a natureza. Mas o que eu quero mesmo é te incentivar a desapegar do jardim certinho, todo topiado, com o gramado perfeito, para dar espaço a um jardim produtivo, biodiverso e funcional: onde as plantas ornamentais, temperos, hortaliças, frutíferas, plantas medicinais e as plantas alimentícias não-convencionais (as PANC) podem conviver em perfeita harmonia, trazendo cor, sabor, beleza e aromas diversos para sua vida.

Bioma e as plantas espontâneas

O primeiro passo para quem deseja ter um jardim biodiverso, é observar a vocação do quintal e do bioma onde habita. Bioma é o conjunto de vida vegetal e animal que engloba toda a biodiversidade de determinada região. No Brasil, existem cinco biomas: Floresta Amazônica, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampas e Pantanal, e em todos esses biomas, estima-se que cresçam espontaneamente, cerca de 40% de plantas endêmicas – espécie endêmica é aquela que ocorre somente em uma determinada área ou região geográfica.

Na prática, isso significa que, nos seus vasos e canteiros, as plantas espontâneas da região que você mora, provavelmente já estão crescendo (ou pelo menos tentando crescer) no quintal – elas são negligenciadas, chamadas de daninhas, mato, praga; e assim, as arrancamos sem dó nem piedade sem saber para que serve, e sem entender como elas podem ser úteis para o ecossistema existente no jardim de casa.

Essas plantas espontâneas, podem ser manejadas trazendo biodiversidade para o jardim – muitas são medicinais e alimentícias, riquíssimas em nutrientes e fitoativos que dificilmente teremos acesso apenas comendo alface e rúcula. As PANC (plantas alimentícias não convencionais) se manifestam o tempo todo por todas as partes: terrenos baldios, nos quintais, hortas, pomares, nos vasos, nas frestas das calçadas… permitir que elas se manifestem, é trazer a biodiversidade para o jardim e para a nossa alimentação cotidiana.

Outro benefício de mantermos a biodiversidade no jardim, é a proteção natural que se estabelece contra pragas e doenças. Pragas detestam jardins com variedades de espécies, aromas e cores. Elas preferem a monocultura, ou seja, canteiros e outras áreas de plantio que contenham uma única ou poucas espécies. Quer proteger as plantas dos bichinhos indesejáveis? Se inspire no jardim da vovó: variado, colorido, repleto de plantas medicinais e aromáticas.

Sazonalidade no jardim

Capuchinha (Tropaelum majus)

A biodiversidade também perpassa pela sazonalidade da natureza e pelas plantas que nascem em determinadas épocas do ano. Essas plantas vêm e vão, trazendo consigo, a possibilidade de nos alimentarmos de forma sazonal. Elas nascem de tempos em tempos, semeiam, morrem e retornam no próximo ano. É o caso da beldroega, almeirão-roxo, caruru, mastruço, crepe-do-japão, erva-de-jabuti, erva-tostão, entre muitas outras.

É possível semear as plantas sazonais. A capuchinha (Tropaeolum majus), por exemplo, fica maravilhosa no jardim. Ela é uma herbácea anual que pode ser usada como trepadeira ou planta pendente. Basta semeá-la ou plantá-la uma única vez para tê-la nascendo por muito tempo em vasos, bacias e canteiros. A capuchinha é uma planta perene, comestível dos pés à cabeça, que prefere as estações mais amenas do ano: outono, inverno e primavera. No verão, ela pode desaparecer, e quando a gente menos espera, ela ressurge impulsionada pelos dias frios – linda, exuberante, com suas flores que vão do vermelho, laranja e amarelo. As flores têm sabor de agrião, e são levemente picantes.

Plantas ornamentais

Está na hora de conhecermos as plantas nativas e dar preferência às espécies que pertencem ao bioma em que o jardim está localizado. Como falamos na live, o Brasil tem a maior biodiversidade do planeta. Imaginem quantas variedades de plantas nativas se adequam perfeitamente a qualquer tipo de paisagismo. Porém, o que vemos comumente são jardins repletos de plantas exóticas ou sempre com as mesmas espécies, o que resulta muitas vezes em um jardim estéril, com alta manutenção e monótono.

As plantas ornamentais, além de cumprirem a missão de trazer beleza ao paisagismo, podem ir além. Aqui deixo sugestões de plantas nativas e exóticas que farão o maior sucesso no seu jardim, pois todas têm partes comestíveis: hibiscos, dálias, camélia, amor perfeito, algumas espécies de hemerocallis, onze-horas, ora-pro-nobis, taioba, lírio do brejo, impatiens, cúrcuma, jambú, carqueja, celosia, araruta, peixinho da horta, beldroega, gervão- azul, e por aí vai. Lembre-se: antes de sair comendo o seu jardim, é preciso pesquisar ou consultar um especialista em PANC.

O alecrim (exótico) e o gervão-azul (espontânea), convivendo em harmonia.

Horta e pomar

Quem tem quintal em casa, tem ouro! No lugar de grama, plante comida. São inúmeras as variedades de frutíferas nativas do Brasil: araçá, pitanga, jabuticaba, ingá, maracujá, butiá, gabiroba, cambuí, cajá, caju, açaí, acerola… Cultive uma horta com os temperos e hortaliças que você mais gosta e permita que as PANC se manifestem. Além de economizar no mercado, você garante a procedência desses alimentos – segurança alimentar.

O espiral de ervas é uma ótima maneira de ter em um pequeno espaço, uma grande variedade de ervas e hortaliças. Além de conferir uma estética linda e rústica para o jardim inspirado na Permacultura.

O jardim biodiverso é um oásis para os polinizadores, e se estiver localizado nos grandes centros urbanos, auxiliará borboletas, beija-flores, abelhas e passarinhos a encontrarem alimento na cidade. É só alegria para todos os seres que ali habitam.

Trazer a biodiversidade para pertinho da gente, é experimentar uma nova forma de jardinagem, e não somente isso: é contribuir para um mundo mais ecológico, consciente e em equilíbrio.

Agora é a sua vez de colocar as mãos na terra e iniciar o seu jardim biodiverso. Para eu e a Raquel Patro desenvolvemos um e-book sobre adubação orgânica, que você pode baixar gratuitamente nesse link https://raquelpatro.com.br/e-book-adubacao-organica. E lembre-se de compartilhar esse artigo com seus amigos.